{"id":836,"date":"2026-04-25T09:55:03","date_gmt":"2026-04-25T09:55:03","guid":{"rendered":"http:\/\/ronaldocastilho.com.br\/?p=836"},"modified":"2026-04-25T09:55:03","modified_gmt":"2026-04-25T09:55:03","slug":"a-democracia-em-silencio-o-significado-do-crescimento-da-abstencao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ronaldocastilho.com.br\/?p=836","title":{"rendered":"A democracia em sil\u00eancio: o significado do crescimento da absten\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>A desconfian\u00e7a na classe pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno novo, mas adquiriu contornos particularmente intensos no mundo contempor\u00e2neo. Ela se manifesta de diferentes formas, desde o descr\u00e9dito generalizado nas institui\u00e7\u00f5es at\u00e9 a recusa silenciosa de participar do processo democr\u00e1tico, como evidenciam os \u00edndices de absten\u00e7\u00e3o eleitoral. No Brasil recente, por exemplo, mais de 31 milh\u00f5es de eleitores deixaram de votar no primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es de 2022, o que corresponde a cerca de 20% do eleitorado, a maior taxa desde 1998. No segundo turno, mesmo com leve redu\u00e7\u00e3o, a absten\u00e7\u00e3o ainda ficou em torno de 20,59%. J\u00e1 nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2024, o \u00edndice voltou a crescer em v\u00e1rios contextos, aproximando-se de 25% em estados como S\u00e3o Paulo e chegando perto de 30% em algumas cidades no segundo turno. Esses n\u00fameros n\u00e3o s\u00e3o apenas estat\u00edsticas: s\u00e3o sintomas de um mal-estar pol\u00edtico mais profundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a Antiguidade, a rela\u00e7\u00e3o entre povo e poder pol\u00edtico foi marcada por tens\u00f5es. Arist\u00f3teles j\u00e1 alertava que a estabilidade de um regime depende da confian\u00e7a dos cidad\u00e3os em suas institui\u00e7\u00f5es. Quando essa confian\u00e7a se rompe, a pr\u00f3pria ideia de comunidade pol\u00edtica entra em crise. S\u00e9culos depois, Nicolau Maquiavel observou que os governantes que se afastam do povo tendem a perder legitimidade, ainda que mantenham o poder formal. A pol\u00edtica, para ele, exige n\u00e3o apenas autoridade, mas tamb\u00e9m percep\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a e efic\u00e1cia.<\/p>\n\n\n\n<p>Na modernidade, essa discuss\u00e3o se intensifica. Jean-Jacques Rousseau defendia que a soberania reside no povo, mas reconhecia o risco de que representantes se distanciem da vontade geral. J\u00e1 Alexis de Tocqueville, ao analisar a democracia, percebeu que a participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica \u00e9 o que sustenta o regime democr\u00e1tico. Quando os cidad\u00e3os se tornam ap\u00e1ticos ou descrentes, abre-se espa\u00e7o para formas de poder menos representativas.<\/p>\n\n\n\n<p>No s\u00e9culo XX, o tema ganha novas camadas com a an\u00e1lise das massas e da opini\u00e3o p\u00fablica. Hannah Arendt chamou aten\u00e7\u00e3o para o perigo da aliena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, destacando que o afastamento dos cidad\u00e3os da esfera p\u00fablica pode enfraquecer a democracia e facilitar a emerg\u00eancia de discursos autorit\u00e1rios. Por sua vez, J\u00fcrgen Habermas enfatizou a import\u00e2ncia do debate p\u00fablico racional, alertando que sua deteriora\u00e7\u00e3o compromete a legitimidade das decis\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil e em outras democracias contempor\u00e2neas, a desconfian\u00e7a na classe pol\u00edtica tem m\u00faltiplas causas. Esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o recorrentes, promessas n\u00e3o cumpridas, desigualdade persistente e a percep\u00e7\u00e3o de distanciamento entre representantes e representados contribuem para esse cen\u00e1rio. Soma-se a isso o impacto das redes sociais, que, ao mesmo tempo em que ampliam o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m intensificam a polariza\u00e7\u00e3o e a circula\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ando percep\u00e7\u00f5es negativas.<\/p>\n\n\n\n<p>A absten\u00e7\u00e3o eleitoral, nesse contexto, torna-se uma forma silenciosa de protesto. Diferentemente do voto nulo ou em branco, que ainda pressup\u00f5em comparecimento, a aus\u00eancia nas urnas indica, muitas vezes, um rompimento mais profundo com o sistema pol\u00edtico. Embora o voto seja obrigat\u00f3rio no Brasil, a persist\u00eancia de \u00edndices elevados de absten\u00e7\u00e3o sugere que uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sente representada ou motivada a participar. \u00c9 uma esp\u00e9cie de descren\u00e7a institucionalizada.<\/p>\n\n\n\n<p>As consequ\u00eancias desse fen\u00f4meno s\u00e3o amplas e preocupantes. Em primeiro lugar, a absten\u00e7\u00e3o afeta a representatividade. Governantes eleitos com base em uma participa\u00e7\u00e3o reduzida podem enfrentar questionamentos sobre sua legitimidade, ainda que tenham vencido dentro das regras do jogo. Em segundo lugar, ela pode distorcer o resultado eleitoral, favorecendo grupos mais mobilizados em detrimento de uma maioria silenciosa. Por fim, a desconfian\u00e7a cont\u00ednua tende a alimentar um ciclo vicioso: quanto menor a participa\u00e7\u00e3o, menor o engajamento c\u00edvico, e quanto menor o engajamento, maior o distanciamento entre sociedade e pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>No cen\u00e1rio atual, marcado por r\u00e1pidas transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e sociais, esse desafio se torna ainda mais complexo. A pol\u00edtica passou a disputar aten\u00e7\u00e3o com uma multiplicidade de est\u00edmulos, enquanto a confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es enfrenta crises sucessivas em escala global. A sensa\u00e7\u00e3o de que \u201ctodos s\u00e3o iguais\u201d ou de que \u201cnada muda\u201d contribui para o afastamento, mas tamb\u00e9m simplifica uma realidade que \u00e9, por natureza, complexa.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, \u00e9 preciso cuidado para n\u00e3o confundir cr\u00edtica com rejei\u00e7\u00e3o total. A desconfian\u00e7a pode ser um elemento saud\u00e1vel da democracia quando se traduz em vigil\u00e2ncia, cobran\u00e7a e participa\u00e7\u00e3o ativa. O problema surge quando ela se transforma em apatia ou cinismo, esvaziando o espa\u00e7o p\u00fablico. Como j\u00e1 indicavam pensadores de diferentes \u00e9pocas, a democracia n\u00e3o se sustenta apenas por regras formais, mas pela disposi\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os em participar e confiar minimamente no processo coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante disso, o desafio contempor\u00e2neo n\u00e3o \u00e9 eliminar a desconfian\u00e7a, mas equilibr\u00e1-la com engajamento. Isso passa por maior transpar\u00eancia, fortalecimento das institui\u00e7\u00f5es, educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e incentivo \u00e0 participa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3. Mais do que isso, exige uma reflex\u00e3o sobre o papel de cada indiv\u00edduo na constru\u00e7\u00e3o da vida p\u00fablica. Afinal, a pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 apenas aquilo que se faz nos gabinetes ou nos parlamentos, mas tamb\u00e9m aquilo que se constr\u00f3i na rela\u00e7\u00e3o entre cidad\u00e3os e suas escolhas.<\/p>\n\n\n\n<p>A alta absten\u00e7\u00e3o registrada nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es brasileiras n\u00e3o deve ser vista apenas como um dado pontual, mas como um sinal de alerta. Ela revela uma democracia que continua funcionando formalmente, mas que enfrenta desafios importantes em termos de confian\u00e7a e participa\u00e7\u00e3o. Compreender suas causas e consequ\u00eancias \u00e9 um passo fundamental para fortalecer o pr\u00f3prio regime democr\u00e1tico e evitar que o distanciamento entre sociedade e pol\u00edtica se torne ainda mais profundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A desconfian\u00e7a na classe pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno novo, mas adquiriu contornos particularmente intensos no mundo contempor\u00e2neo. 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